
Teresa Faria explica que a adesão neste segundo dia de paralisação “está a ser bastante boa”, vindo na sequência dos números “registados na noite anterior, onde a paralisação distrital rondou mesmo os 95 por cento”. De acordo com os dados avançados pela coordenadora local do SEP, cerca de 98 por cento dos enfermeiros do Garcia de Orta aderiram à greve, números que descem para os 90 por cento no hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, e no São Bernardo, em Setúbal.
O Ministério da Saúde (MS) apresenta, contudo, valores de adesão distintos. A maior diferença registada verifica-se no Garcia de Orta, em que o MS adianta que cerca de 80 por cento dos enfermeiros aderiram à greve. Já os hospitais do Barreiro, de São Bernardo e do Litoral Alentejano registaram, respectivamente, 94,6, 86,9 e 96,7 por cento de adesão. O centro de saúde da freguesia do Seixal, da Quinta da Lomba, no Barreiro, de Alcácer do Sal, de Alcochete e a extensão de saúde Rainha Dona Leonor, em Almada, “foram alguns dos que encerraram no dia de ontem”. “No total, encerraram cerca de 17 a 20 centros de saúde e unidades de saúde familiar a nível distrital”, realça Teresa Faria.
A revisão da carreira da classe dos enfermeiros está na origem da paralisação de três dias. Em causa, está a discussão em torno da remuneração de entrada na carreira, de 1020 euros brutos, “números distintos do resto da administração pública e mesmo das outras carreiras técnicas, como os médicos e os juízes, que auferem inicialmente cerca de 2500 euros brutos”. “A componente salarial foi apenas o motor que fez explodir toda a indignação dos enfermeiros”, acrescenta Teresa Faria.
Segundo a sindicalista, a greve poderá ser entendida pela “ausência de reconhecimento por toda uma profissão”, dado que as condições em que a mesma tem vindo a ser efectuada “têm-se degradado e, aquando da discussão em torno da negociação da carreira, parece que tudo é feito de má vontade”. “A enfermagem teve de dar um salto gigante na última década para acompanhar as inovações tecnológicas, pelo que, muitas vezes, a classe dos enfermeiros tem de ter formações em horário pós-laboral, sacrificando a vida profissional”, reitera Teresa Faria, acrescentando que “lamentável continua a ser a postura do Ministério da Saúde, que teima em não reconhecer a importância dos enfermeiros”.
A nível distrital, Teresa Faria realça que aquilo que tem vindo a imperar nos últimos anos “é a sub-contratação”, que acaba por ter um “efeito perverso na profissão”. “Os profissionais trabalham a recibos verdea, só ganham as horas que trabalham e, no caso de Setúbal, essa remuneração é de 7 euros à hora”, afirma Teresa Faria, lamentando o facto de os jovens licenciados “muitas vezes ingressarem na carreira nestas condições, não tendo perspectivas sequer de desenvolvimento”.
“Isto acaba por desregular a carreira dos enfermeiros, podendo levar a que os profissionais não a encarem com responsabilidade e eficácia”, desabafa a coordenadora local do SEP. Teresa Faria explica também que “o insulto máximo, a cereja em cima do bolo”, foi a proposta da Ministra da Saúde, Ana Jorge, na segunda ronda negocial entre as partes, que decorreu no início deste mês. Nessa altura, a ministra propôs a todos os enfermeiros descer a proposta de entrada dos actuais 1020 euros para 995 até ao ano de 2014, altura em que passariam para os 1200 euros. “Os enfermeiros não podem continuar a ser humilhados desta maneira”, reforça Teresa Faria.
Depois das concentrações de enfermeiros no dia de ontem em frente aos hospitais do Barreiro, de Setúbal e do Garcia de Orta, Teresa Faria adianta que os profissionais de saúde estão actualmente concentrados “sob a ponte do Pragal”, apelando a todos os utilizadores da A2 que “buzinem quando passam debaixo da ponte, em sinal de solidariedade”. “O objectivo dos enfermeiros não é hostilizar a população, pelo que tudo o que seja emergente nos hospitais, que acarrete risco de vida, continuará a ser naturalmente assegurado”, conclui a sindicalista.
Fonte: Setubal na Rede , Bruno Cardoso, 28-01-2010



